Árvores para resolver os problemas do mundo?

Desde as árvores transgênicas para a bioeconomia até a proposta de um trilhão de árvores e os Negócios para a Natureza

Por Anne Petermann e Orin Langelle, Global Justice Ecology Project

Este relatório examina os eventos e pesquisas divulgados ao longo de duas semanas, entre 23 de junho e 4 de julho de 2019, discutindo a utilização maciça de árvores para permitir o estilo de vida insustentável do segmento de 1% mais rico do mundo ante as catástrofes ecológicas iminentes: desde as árvores geneticamente modificadas para facilitar a geração “verde” de energia, plásticos e produtos químicos; a plantação de trilhões de árvores para reduzir os níveis globais de carbono atmosférico; e as “reformas” do sistema econômico para permitir lucros futuros sob o disfarce de proteção da biodiversidade.

Os três eventos em que estas propostas se apresentaram foram a Conferência de Biotecnologia de Árvores da Organização Internacional de Pesquisa Florestal de 2019, realizada de 23 a 29 de junho na NCSU, em Raleigh, NC; o estudo The Global Tree Restoration Potential, publicado em 4 de julho na revista Science; e o lançamento das iniciativas Business for Nature (“Negócios para a Natureza”) na China e na Noruega em 2 de julho.

 

Conferência de Biotecnologia das Árvores da IUFRO

A União Internacional de Organizações de Pesquisa Florestal (IUFRO) realizou sua Conferência de Biotecnologia das Árvores de 2019, de 23 a 29 de junho, na Universidade Estadual da Carolina do Norte, em Raleigh. Esta foi a primeira Conferência de Biotecnologia das Árvores realizada pela IUFRO desde junho de 2017, quando sua conferência em Concepción, Chile, foi recebida com dias de protestos e interrupções protagonizados por ativistas mapuches, estudantes e outros. Esta conferência de Biotecnologia das Árvores fora originalmente anunciada para se celebrar em Curitiba, Brasil. Mas a conferência foi repentinamente transferida para Raleigh, Carolina do Norte, devido aos protestos na última conferência de Biotecnologia das Árvores no Chile e ao fato de que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil ter uma longa história de ativismo contra as árvores transgênicas [1] A Universidade Estadual da Carolina do Norte foi provavelmente escolhida por ser a base de diversas iniciativas para a promoção das árvores transgênicas, incluindo pesquisas sobre novas formas de alcançar consentimento social ante um público resistente – um tema importante da Conferência de Biotecnologia da Árvore deste ano.

Os efeitos desses protestos foram sentidos na Conferência de Biotecnologia das Árvores deste ano, que incluiu a presença constante da polícia dentro e fora do local, apelos aos participantes para assumirem os três principais cargos de liderança no evento e confusão quanto a quando e onde a próxima conferência poderia acontecer, e até mesmo se continuaria a se utilizado o polêmico termo “biotecnologia”. A ausência de apresentações por parte de alguns dos líderes mais diretos no campo da biotecnologia das árvores contribuiu ainda mais para a ansiedade subjacente ao evento.

Embora o futuro das Conferências de Biotecnologia das Árvores seja incerto, o que não estava em questão era o desejo da indústria de usar árvores transgênicas especialmente projetadas como matéria-prima para a futura “bioeconomia”. Este ponto foi abordado em uma série de apresentações finais. No entanto, alguns dos grandes desafios continuam centrando-se em como desbloquear os açúcares nas árvores, o qual é necessário para transformá-los em combustíveis, plásticos, produtos químicos e outros produtos, como refletiu a crescente ênfase na conferência de 2019 sobre a técnica de edição de genes conhecida como CRISPR.

Rudolphe Barrangou. Foto: Langelle/GJEP

A apresentação plenária de abertura da Conferência de Biotecnologia das Árvores da IUFRO foi feita por Rodolphe Barrangou, professor da Universidade Estadual da Carolina do Norte e editor da revista The CRISPR Journal, que destacou seus esforços pessoais para trazer CRISPR e outras tecnologias de edição genética para o setor florestal. Ele se referiu à história da humanidade como “AC – Antes de CRISPR” em contraposição com “DC – depois da morte das outras tecnologias recombinantes “. Ele também apontou que” o gargalo [é] a aceitação por parte dos reguladores e da sociedade “.

Para resolver este problema, ele concebeu um processo CRISPR que alcançaria uma “aprovação [regulatória] não transgênica”. Se as pessoas entendessem que a tecnologia CRISPR continua sendo uma técnica de engenharia genética, Barrangou temia que pudesse supor a queda do movimento CRISPR.

Ele passou a explicar como o uso da inteligência artificial e aprendizado de máquina poderia ser usado nas árvores florestais para prever quais genomas, sequências e caminhos seria preciso derrubar, ligar, desligar, a fim de achar os traços relevantes que sejam de interesse para a indústria. Ele também admitiu que os cientistas da CRISPR não estão “nem perto de entender a genômica das árvores da forma em que hoje entendemos a genômica humana, devido ao fato de que os genomas das árvores são muito maiores e mais complexos”.

Mas a confiança excessiva na CRISPR como uma ferramenta para mudar as árvores foi evidente na conferência, que incluiu várias outras apresentações sobre a aplicação da CRISPR em árvores, incluindo o uso de CRISPR para modificar a ramificação de árvores a fim de cultivar árvores de jeito mais denso nas plantações – ignorando as implicações sociais e ecológicas deste tipo de propostas.

A falta de preocupação pelos pesquisadores em relação às maiores implicações e riscos das árvores transgênicas levou a décadas de oposição global às árvores transgênicas, fato que foi discutido durante uma longa sessão do painel sobre “Aceitação Social da Biotecnologia Florestal”, focada em como conseguir que o público aceite as árvores transgênicas. Abriu-se o painel com uma apresentação de Jared Westbrook, diretor de ciência da American Chestnut Foundation, sobre o uso da GE para restaurar o castanheiro americano. A segunda apresentação discutiu as conclusões de uma pesquisa conduzida para procurar convencer o público sobre os benefícios do uso de árvores transgênicas em esquemas de restauração florestal, especialmente com o castanheiro americano geneticamente modificado. A discussão que se seguiu abordou o tópico de forma mais ampla, incluindo um debate com o público e a participação de um representante da empresa de engenharia genética florestal FuturaGene.

O mal-estar geral da conferência foi sentido em seu jantar de encerramento, normalmente uma celebração de gala, mas que este ano foi uma repetição desesperada e desordenada de apelos para achar voluntários dispostos a assumir a organização de atividades futuras.

 

Proposta de plantação de um trilhão de árvores

Menos de uma semana após o encerramento da Conferência de Biotecnologia das Árvores da IUFRO, um estudo foi publicado na revista Science sob o título O Potencial Global de Restauração das Árvores, projetando a capacidade de mitigar a mudança climática através da plantação em massa de trilhões de árvores em todo o mundo. [2]

O estudo, desenvolvido pela Crowther Labs e pela ETH Zürich, com a ajuda da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, foi saudado como uma cura milagrosa para a mudança climática – a solução infalível para permitir que a cultura dominante continue ininterrupta pelo colapso ecológico. O estudo, no entanto, está repleto de perguntas não respondidas e sérios sinais de alerta. Uma das principais bandeiras é a confiança do estudo na definição de florestas da ONU, que é qualquer área coberta por 10% de árvores, sem excluir as plantações de monoculturas de árvores – apesar de repetidos apelos por grupos de proteção florestal para fazê-lo. De acordo com o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, a definição da FAO “descarta outras formas de vida, bem como a diversidade biológica e cultural que define uma floresta, ignorando os impactos sociais e ambientais das plantações”. [3]

O que isto significa é que os trilhões de árvores que estão sendo promovidas poderiam facilmente incluir vastas monoculturas de árvores não-nativas, ou mesmo árvores transgênicas, devido à definição intencionalmente ampla de florestas da FAO. [4] Este fato é confirmado por uma decisão tomada na Conferência do Clima das Nações Unidas em 2003, em Milão, afirmando que as árvores transgênicas poderiam ser utilizadas em plantações de carbono florestal.

Outra alerta séria é o envolvimento neste estudo de pesquisadores ligados ao programa da ONU para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD). [5] O programa REDD tem sido ativamente combatido pelos Povos Indígenas e comunidades dependentes da floresta desde o seu início. Os esquemas do programa REDD assumem terras florestais para “proteger” (e vender) o carbono que armazenam – e resultaram no deslocamento forçado de comunidades que vivem nessas florestas. [6]

O estudo sobre os trilhões de árvores refere-se repetidamente à geração de cobertura de árvores “na ausência de” ou com “mínima” atividade humana em 1,7 bilhão de hectares, o qual poderia facilmente resultar em deslocamentos em massa de comunidades rurais, pobres e indígenas dessas terras.

Um problema adicional do estudo deriva-se dos seus cálculos matemáticos. Os autores admitem que as 300 gigatoneladas de carbono projetadas para serem armazenadas por esses trilhões de árvores não serão realizadas até que as árvores estejam maduras, o que pode levar décadas. [7] Enquanto isso acontece, aproximadamente 10Gt de CO2 são emitidos anualmente. [8] Nas zonas de floresta boreal, com grande ênfase do estudo, as árvores crescem muito, muito lentamente. A isto deve acrescentar-se a falta de interesse do estudo na crescente taxa de destruição de florestas críticas atualmente existentes que está ocorrendo – como ilustra o aumento de 88% nas taxas de desmatamento na Amazônia brasileira durante o último ano [9]. Tudo isso faz que o estudo se parecer mais com um conto de fadas do que uma recomendação séria para mitigar a mudança climática.

 

Árvores como motor para um futuro verde de consumo

Embora aparentemente em desacordo, tanto o estudo do Crowther Lab em relação ao enorme aumento da cobertura global de árvores para armazenar carbono, como a proposta dos pesquisadores florestais para aumentar a demanda de árvores transgênicas para substituir os combustíveis fósseis pela produção industrial de tudo, desde a eletricidade até os plásticos, caem na mesma falsa visão de um mundo em que o uso em massa de árvores se torna o caminho para um “futuro limpo e verde”. Ambos são, em sua essência, esquemas cínicos e oportunistas para evitar mudanças sociais, econômicas e políticas reais e fundamentais e continuar tornando possível o consumo excessivo de sempre diante da evidência esmagadora de que são precisas mudanças rápidas e fundamentais em todos os níveis da sociedade – um apelo que foi até mesmo adotado pelas Academias Nacionais de Ciências [16] e pelo Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. [10]

 

Negócios para a Natureza?

Junto com essas falsas soluções para a mudança climática surgiu outro subterfúgio para usar as florestas e o mundo natural para acelerar a obtenção de lucros sob um verniz “limpo e verde”. No dia 2 de julho a iniciativa do Business for Nature (Negócios para a Natureza) foi anunciado simultaneamente em uma reunião do Fórum Econômico Mundial na China e na Conferência Trondheim da Noruega sobre Biodiversidade.

A ideia não é nova. Em 2008, em Bonn, Alemanha, a Convenção da ONU sobre a Diversidade Biológica (CBD) lançou sua própria iniciativa de negócios e biodiversidade, que incluiu modelos para marketing de serviços ambientais, o Programa de Compensação de Empresas e Biodiversidade (BBOP), a Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (TEEB) e um novo Mecanismo de Desenvolvimento Verde. [11]

Para enfatizar a urgência, o site da Business for Nature destaca a manchete: A perda da natureza está ameaçando as nossas economias – são necessárias ações e colaborações urgentes. [12]

A página de início do site apresenta estatísticas sobre a “perda maciça de natureza”, enquanto evita cuidadosamente qualquer indicação sobre as causas, impulsionada, em particular, pela crença de que os humanos são de alguma forma separados da “natureza”. O site destaca o Relatório Global de Riscos (Global Risk Report) que “identificou os riscos ambientais como um dos maiores riscos sistêmicos para a nossa economia global”, acrescentando que “somente a guerra nuclear seria mais destrutiva”.

Na lógica distorcida do esquema do Business for Nature, a “proteção da natureza” é promovida de forma não-irônica como “essencial para a prosperidade dos negócios”, enquanto, ao mesmo tempo, lista atividades que nos levaram a essa crise ecológica – ou seja, a extração de recursos naturais necessária para essa prosperidade – como justificativa para os negócios protegerem a natureza.

A culminação da proposta destaca as “oportunidades significativas” (lucros maciços) a serem feitos protegendo os “serviços ecossistêmicos” da natureza:

“2 trilhões de dólares EUA em oportunidades na transformação do sistema de alimentos e terras

22,6 trilhões de dólares EUA em oportunidades para infraestruturas de água até 2050

A ECONOMIA DO OCEANO ESTIMA-SE EM 2,5 TRILHÕES DE DÓLARES POR ANO ”

Em seus compromissos com as florestas, também promove uma campanha de reflorestamento em massa, juntamente com um compromisso com o REDD, e a eliminação do desmatamento até 2030, que seria magicamente alcançado sem o compromisso de reduzir a demanda por produtos de madeira.

Talvez isso aconteça porque os futuros negócios verdes serão alimentados pela bioeconomia que, como mencionado acima, requer um enorme aumento no consumo de madeira.

 

Vai a CRISPR fabricar a árvore transgênica perfeita (não regulamentada)?

E é aí que a Conferência de Biotecnologia das Árvores, o Potencial Global de Restauração de Árvores e o Negócio pela Natureza podem se sobrepor através da tecnologia de engenharia genética conhecida como CRISPR. [13]

A impressão geral da Conferência de Biotecnologia das Árvores da IUFRO foi que os cientistas e a indústria estão apostando em tecnologias emergentes como a CRISPR e uma crescente demanda por produtos de madeira e árvores de desenho para a saúde florestal, a mitigação climática e a bioeconomia como o futuro mercado futuro para as árvores transgênicas.

Será que os pesquisadores imaginam usar a CRISPR para desenhar árvores transgênicas para a iniciativa dos trilhões de árvores? Será que estas árvores serão especialmente adaptadas para biomas específicos? Ou serão desenhadas para resistir estresses climáticos, ataques de insetos ou outras características?

Existem conexões desconfortáveis ​​entre o trabalho para criar árvores transgênicas mediante a tecnologia CRISPR e o estudo do trilhão de árvores. A ETH Zürich, na Suíça, lar do Laboratório Crowther que liderou o estudo, por exemplo, é considerada uma das melhores escolas de biotecnologia da Europa. Em março, premiou com a Medalha de Ouro Richard R. Ernst a Emmanuelle Charpentier, um dos cientistas que descobriu a ferramenta de edição de genes CRISPR, e participa do Conselho Editorial da revista The CRISPR Journal com Barrangou. E Crowther gosta de se gabar de que seu laboratório inclui especialistas em mapeamento geoespacial, sensoriamento remoto e técnicas genéticas. É fácil ver onde árvores  transgênicas com tecnologia CRISPR poderiam encaixar no esquema para cobrir o planeta com árvores transgênicas sugadoras de carbono que poderiam então ser cortadas e descascadas, lascadas ou digeridas em açúcares para alimentar a insaciável e insustentável demanda por materiais de construção, energias, plásticos, etc. A demanda que alimentou a economia global e nos ajudou a chegar à beira do desastre.

 

Exceto pelo Regulamento Europeu sobre Edição de Genes

Durante o painel sobre a aceitação social das árvores transgênicas, o pesquisador Wout Boerjan, do Instituto Ghent, na Bélgica, um defensor de longa data da desregulamentação das árvores transgênicas, discutiu seus medos sobre a decisão da União Européia de tratar as árvores geneticamente modificadas e outras criações do mesmo jeito do que outros OGMs. “Se a edição genética estiver sob o regulamento de organismos geneticamente modificados, muitas empresas novas não começarão. Há muitas ideias novas baseadas no CRISPR / CAS e elas só podem evoluir para uma empresa se não for tão caro trazer esses produtos para o mercado. Então, se você tem uma nova planta editada e precisa passar pelo sistema regulatório, que é extremamente caro, essas pequenas empresas não podem pagar e o produto não chegará ao mercado, então toda a inovação na Europa vai cair . ”[14].

Miron Abramson, da empresa de engenharia genética florestal FuturaGene, respondeu que não estava muito preocupado com a edição de genes percebidos como OGMs: “Então, vamos tratá-lo como engenharia genética e não vejo nenhuma desvantagem ou vantagem neste caso, mas apenas outra ferramenta”.

 

Uma voz da experiência oferece uma palavra de cautela

Mas na Conferência de Biotecnologia das Árvores da IUFRO ouviram-se também vozes de advertência. Mais adiante, no mesmo painel, o professor Ron Sederoff, considerado o pai da biotecnologia das árvores, observou que “há pessoas que se mantêm acordadas à noite preocupadas com essa tecnologia e eu posso ser uma delas. Um oponente da tecnologia da engenharia genética, David Suzuki, argumenta que não é possível confiar na ciência em relação com as novas tecnologias. A ciência faz coisas inerentemente perigosas e não sabemos o que pode acontecer, e acho que esse é o núcleo do argumento dele. Mas eu concordo que isso é certo. Há pessoas que simplesmente temem novas tecnologias, e acho que elas têm um bom motivo. Olhando para trás na história humana, tem havido mau uso de todas as principais tecnologias que foram inventadas. … Nós nem sequer pensamos sobre o potencial para o uso indevido da tecnologia da que estamos falando. Mas eu acho que está aí. … Eu acho que há preocupações, e eu acho que a CRISPR, por exemplo, representa uma ameaça porque faz coisas [que existem fora da lei] e se você pudesse fazer qualquer coisa que você quisesse e você estivesse mal inclinado, você pode ser capaz de pegar patógenos que afetam pessoas, ecologia ou florestas e combinar suas características e fazer coisas novas. Eu acho que há coisas para se preocupar. ”[15]

 

Transformação não Reforma: junte-se ao ressurgimento!

O Global Justice Ecology Project, órgão coordenador da Campanha Internacional para DETER as árvores transgênicas, está publicando este relatório e crítica da Conferência de Biotecnologia da Árvores da IUFRO de 2019, a Campanha Trillion Tree e a iniciativa Business for Nature devido ao nosso compromisso de construir uma crítica das falsas soluções que permitam continuar com os negócios como sempre. Este é um passo em nosso trabalho para ajudar a criar um movimento que pode transformar os fundamentos dos sistemas políticos, sociais e econômicos, a fim de enfrentar as múltiplas crises ecológicas que ameaçam a sobrevivência futura de humanos e milhões de outras espécies.

Outro jeito no que estamos procurando cumprir com a nossa missão é através da coorganização do The Resurgence: Convergência do Movimento Florestal e Climático da América do Norte de 2019, de 11 a 14 de outubro, na Shawnee National Forest de Southern Illinois. Esta sessão de ação estratégica, aberta a ativistas e organizadores florestais e climáticos e outras pessoas, visa descobrir as causas profundas das crises ecológicas que enfrentamos e desenvolver novas estratégias para enfrentá-las. (Para informações, acesse http://forestclimateconvergence.org)

Para proteger as florestas e as comunidades contra os impactos da catástrofe climática, devemos opor ativamente as falsas soluções baseadas no mercado e viradas para o lucro, injustas às mudanças climáticas, como as descritas acima. Se o que é proposto como uma solução para uma mudança climática catastrófica põe em risco outras pessoas ou ecossistemas não pode afirmar ser justa ou sustentável.

Para manter as florestas intactas, devemos transformar os fundamentos dos sistemas políticos e econômicos dominantes e fazer uma transição para sistemas locais e tradicionais de pequena escala.

Podemos ver claramente o resultado do sistema político e econômico dominante na forma de crises climáticas e doutros tipos, incluindo a perda de água doce e terra arável, o colapso oceânico, a extinção em massa e as condições meteorológicas extremas, bem como a escalada de abusos dos direitos humanos, incluindo deslocamentos forçados, migrações e genocídios.

Esses sistemas não podem ser simplesmente reformados. Devemos nos organizar para confrontá-los e transformá-los desde a sua raiz. Até mesmo a conservadora Academia Nacional de Ciências concorda. Um artigo publicado em 6 de agosto de 2018 conclui: “Uma trajetória estabilizada da Terra requer uma gestão deliberada do relacionamento da humanidade com o resto do Sistema Terrestre, se o mundo quiser evitar cruzar um limiar planetário. Sugerimos que uma transformação profunda baseada em uma reorientação fundamental dos valores humanos, equidade, comportamento, instituições, economias e tecnologias é necessária. ”[16]

Para obter informações sobre como participar desse esforço de transformação sistêmica, visite The Resurgence: Convergência do Movimento Florestal e Climático da América do Norte de 2019: http://forestclimateconvergence.org

 

NOTAS

1] CTNBio Meeting to Approve GE Trees Cancelled – FuturaGene Taken Over (2015) https://stopgetrees.org/victory-ctnbio-occupied-meeting-cancelled-no-approval-ge-trees/ Ver também Interview with a Militant of the MST (2017) https://www.youtube.com/watch?v=4GeqRRM7A5s&list=PLJIqsEBkCVM2edxllRUp2a0zTwPI0CMjq&index=4&t=561s

[2] The Global Tree Restoration Potential (2019) https://science.sciencemag.org/content/365/6448/76

[3] Durante décadas, o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais e outros exigiram que a FAO mudasse sua definição de floresta, o que “reduz a floresta a qualquer área coberta por árvores. Ao fazê-lo, a definição da FAO descarta outras formas de vida, bem como a diversidade biológica, cíclica e cultural que define uma floresta em sua contínua interconexão com as comunidades dependentes da floresta. A definição reducionista da FAO também permite que as empresas por trás de dezenas de milhões de plantações industriais de rápido crescimento afirmem que suas monoculturas são “florestas plantadas”. As estatísticas florestais dos países contam, assim, essas monoculturas industriais de rápido crescimento como ‘florestas’, apesar dos impactos sociais e ambientais bem documentados que tais plantações causaram em todo o mundo. A WRM explicou que “Em 2009 a definição de florestas não é uma discussão acadêmica ou lingüística: é uma questão política que tem graves consequências sociais e ambientais para todo o mundo. Definir plantações como florestas fortalece o setor corporativo – particularmente as empresas de plantação – e enfraquece as comunidades locais que se opõem a elas para proteger seus meios de subsistência. A FAO continua desempenhando este papel, recusando-se a mudar sua definição. ” https://wrm.org.uy/wp-content/uploads/2018/03/Compilaci%C3%B3n-21-de-Marzo-2018-EN.pdf

4] O uso da definição da FAO significa que os esforços de “reflorestamento” poderiam facilmente tornar-se monoculturas de árvores, ou até mesmo plantações de árvores transgênicas, já que não há diferença oficial entre elas. Embora o Laboratório Crowther se distancie da questão das monoculturas em seu acompanhamento on-line [ https://www.crowtherlab.com/tree-restoration-potential-qa/ ], o uso da definição de florestas da FAO significa que as monoculturas não podem ser evitadas. E na Conferência Mundial Florestal da FAO em 2009, em Buenos Aires, as sessões sobre reflorestamento, florestamento, restauração florestal, manejo florestal sustentável e desmatamento líquido zero defendeu-se o plantio de monoculturas de árvores. [http://climate-connections.org/2009/10/23/world-forestry-congress-or-how-i-learned-to-stop-worrying-and-love-plantations/] [5] National Forest Monitoring and Information Systems for a transparent and truthful REDD+ process (FAO) https://www.researchgate.net/project/National-Forest-Monitoring-and-Information-Systems-for-a-transparent-and-truthful-REDD-process-FAO

[6] Sky Protector Briefing Paper https://skyprotector.org/2018/08/19/sky-protector-briefing-paper-8-2/ Veja-se também o filme A Darker Shade of Green, REDD Alert and the Future of Forests https://www.youtube.com/watch?v=FPFPUhsWMaQ e

REDD-Monitor’s Offsetting fossil fuel emissions with tree planting and ‘natural climate solutions’: science, magical thinking, or pure PR? https://redd-monitor.org/2019/07/04/offsetting-fossil-fuel-emissions-with-tree-planting-and-natural-climate-solutions-science-magical-thinking-or-pure-pr/

[7] “É claro que a captura de carbono associada à restauração global não poderia ser instantânea porque levaria várias décadas para que as florestas atingissem a maturidade. No entanto, sob a suposição de que a maior parte desse carbono adicional era proveniente da atmosfera, atingir esse potencial máximo de restauração reduziria uma proporção considerável da carga mundial de carbono antropogênico (~ 300 GtC) até o momento. ”(1). The global tree restoration potential https://science.sciencemag.org/content/365/6448/76

[8] Segundo o Global Carbon Project: https://www.co2.earth/global-co2-emissions

[9] Brazil: huge rise in Amazon destruction under Bolsonaro, figures show, The Guardian, 3 de julho de 2019 https://www.theguardian.com/world/2019/jul/03/brazil-amazon-rainforest-deforestation-environment

[10] “Limitar o aquecimento global a 1,5 °C exigiria mudanças rápidas, de longo alcance e sem precedentes em todos os aspectos da sociedade. Com benefícios claros para as pessoas e ecossistemas naturais, limitar o aquecimento global a 1,5 °C em comparação com 2 °C pode ser acompanhado de uma sociedade mais sustentável e equitativa ”, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Resumo para os formuladores de políticas https://www.ipcc.ch/2018/10/08/summary-for-policymakers-of-ipcc-special-report-on-global-warming-of-1-5c-approved-by-governments/

[11] The Green Shock Doctrine, p. 4 https://globaljusticeecology.org/green-shock-doctrine/

[12] Site da Business for Nature: https://businessfornature.org/

[13] A CRISPR é uma técnica de edição genética na qual os segmentos CRISPR e RNA e as enzimas que produzem são usados ​​para identificar e modificar sequências de ADN específicas no genoma de outros organismos https://www.merriam-webster.com/dictionary/CRISPR

[14] Sessão da Conferência de Biotecnologia da Árvores da IUFRO de 2019 sobre “Aceitação Social da Biotecnologia das Árvores” (Citação encontrada em 49:47) https://mediasite.wolfware.ncsu.edu/online/Play/f9f72a14f48f4b4bb5a58222979e4afd1d?catalog=b9038d70a4ff49dbaab35ddc1a25705821

[15] Sessão da Conferência de Biotecnologia da Árvores da IUFRO de 2019 sobre “Aceitação Social da Biotecnologia das Árvores” (Citação encontrada em 1:28:04) https://mediasite.wolfware.ncsu.edu/online/Play/f9f72a14f48f4b4bb5a58222979e4afd1d?catalog=b9038d70a4ff49dbaab35ddc1a25705821

[16] Proceedings of the National Academy of Sciences, August 2018: Trajectories of the Earth System in the Anthropocene https://www.pnas.org/content/115/33/8252

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